Dublê de Anjo (2006)

Dublê de Anjo tem como tema-pivot o choque criado a partir do encontro da imaginação com a realidade. Por meio de uma premissa que parece – de início – simples e fundada na realidade, o filme rapidamente toma rumo no lado místico/onírico/imaginativo a partir do encontro entre Roy e Alexandria, em que Roy – dublê com claros problemas relacionados à sua autoimagem – passa a contar histórias para Alexandria. Nesse sentido, algo curioso de se analisar é a maneira como o filme constrói a relação entre o “esqueleto” da história (representado pelo Roy, que constrói a historia em si), e o resto do corpo, isto é, a visualização resultante do trabalho imaginativo dado para tal a partir da garota.

O estado mental de isolamento e de tristeza geral vivenciado pelo Roy é justificado a partir de sua própria profissão e a relação que a mesma tem com suas claras ambições de vida, isto é: o fato de ser um dublê – uma peça utilizada estrategicamente pra “proteger” aqueles que realmente são “importantes” pro trabalho do cinema – faz com que ele se sinta fadado a ser a segunda escolha: tanto no âmbito amoroso quanto no âmbito de sua carreira. Aqui, o Tarsem Singh construiu muito bem a psique.

Em contrapartida, senti que a história de Alexandria com o pai não foi explorada tanto quanto deveria, chegando a ser  quase dada como “desimportante” frente às outras temáticas do filme. Como uma maneira de “contornar” isso, o diretor tenta incluir o pai dela na história, mas isso acaba perdendo o sentido, visto que não há nenhum tipo de conexão entre os dois personagens ao longo do desenvolvimento da história. 

Desenvolvendo mais no ambiente onírico criado: acho muito bonito que – ao longo da história – a Alexandria ia tomando controle da situação e moldando sua imaginação pra sair do caráter pessimista criado pelo Roy. Isso é perceptível em diversos momentos do filme, mas as cenas finais escancaram sua importância no âmbito imaginativo.

A visão cinematográfica de Colin Watkinson produz – a meu ver – algumas das cenas mais marcantes do cinema, marcadas pela incessante presença de cores vibrantes e de tonalidades polares. Muito disso espelha a própria visualização da história feita por Alexandria. No filme, muitos dos detalhes que ela via no plano real eram trazidos para o filme como elementos da história, a começar pelos personagens, objetos e contextos. 

Enfim, o filme consegue ser tanto uma jornada que aborda a imaginação fértil de uma menina de 9 anos, quanto uma mensagem acerca da vida adulta, ambições e frustrações.

Veredito
8/10

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