Todo ano, uma das maiores atrações para cinéfilos é sem dúvidas o festival de cinema de Cannes. Nós sonhamos em estarmos lá e lutamos para assistir o quanto antes todas as principais estreias do festival. Em 2025, com obras como “Foi Apenas um Acidente” e o nacional “O Agente Secreto”, isso não foi diferente. Porém talvez o filme que eu mais me peguei querendo assistir era “Magalhães”, a obra mais recente do diretor filipino Lav Diaz. Diaz é um dos diretores modernos mais prolíficos, lançando um ou mais filmes por ano, com 7 só essa década, e Magalhães é a obra mais cara e amplamente circulada de sua carreira, narrando a história da travessia de Fernão de Magalhães pelo Pacífico.
Para entender esse filme, é necessário entender a filmografia de Lav Diaz. O diretor começou sua carreira fazendo filmes de estúdio que não refletiam seus verdadeiros interesses artísticos, mas a primeira obra dele realmente considerada parte de seu catálogo central é o épico de 2001 “Avenida West Side”. Com 5 horas de duração, a obra marca o início de uma das tendências mais notáveis da carreira de Diaz, as imensas extensões de seus filmes. Ele narra a jornada de Juan Mijares, um policial filipino que vive em uma comunidade de imigrantes do país em Nova Jersey. Logo no início, um adolescente filipino é assassinado a tiros, e o policial fica encarregado de investigar a morte dele, que cada vez mais parece ter sido causada por outro imigrante filipino. Já em sua primeira obra com completa liberdade artística, financiada do próprio bolso e filmada durante dois anos enquanto o diretor vivia em primeira mão a experiência de um imigrante filipino nos Estados Unidos, o filme traz a tona as consequências de uma vivência distante do próprio país e cultura; para o diretor, a conexão do povo com sua identidade cultural e suas origens é essencial, e a existência filipina em um país tão diferente e hostil traz dor, sofrimento, e violência entre a própria comunidade, que deveria idealmente se unir para lutar por uma vivência melhor.
Diaz viria a expandir essa tese em sua obra-prima “Evolução de uma Família Filipina”, que lançou em 2004 porém foi filmada ao longo de 10 anos e mostra a jornada de uma família durante e após a ditadura de Ferdinand Marcos, que assolou o país nas décadas de ’70 e ’80. Com 10 horas e 24 minutos, o longa explora vários temas que vão muito além do escopo desse vídeo, porém um dos mais aparentes é a forma como a identidade filipina sempre foi moldada por forças exteriores. Se em “Avenida West Side”, as origens do conflito pareciam se encontrar na existência filipina fora de seu país e longe de sua cultura, em “Evolução”, retornar para as Filipinas só traz mais sofrimento. A ditadura de Marcos foi apoiada pelos EUA durante a Guerra Fria, e para o diretor ela existe como uma extensão da colonização americana nas Filipinas que durou de 1898 a 1946. A cultura e governo americanos são colocados como diametralmente opostos à cultura ancestral filipina, algo mostrado diretamente por meio de entrevistas fictícias ao longo do filme com o diretor Lino Brocka. Mas por mais que Diaz relacione Marcos com o passado colonial americano, ele ainda não vê este como o início do sofrimento de seu povo. Ao longo do filme todo, raramente citada mas sempre sentida, paira a sombra dos 4 séculos de colonização espanhola sofridos pelos filipinos.
Essa sombra é abertamente explorada na obra “Canção para um Doloroso Mistério”, filmado com apoio de uma produtora profissional e se passando no fim do século XIX, mostrando e desmistificando a revolução filipina contra os espanhóis. Revolução é algo constantemente explorado por Diaz, que parece concordar com a necessidade da luta mas enxergá-la com certo cinismo (algo até de se esperar considerando que nenhuma revolução filipina até hoje foi bem-sucedida). Nessa obra o diretor se aprofunda ainda mais na história e conflito nas Filipinas, em busca de realmente compreender o início do sofrimento que ele já tanto explorou em suas outras obras. Mesmo assim, Diaz não encontra resposta. A revolução termina sem resolução, o desamparo do povo filipino ainda parece vir de um passado longínquo, e a colonização é vista como uma crueldade de origem distante. Para realmente entender onde começou o sofrimento filipino, Diaz precisaria voltar mais.
E é isso que “Magalhães” faz em sua filmografia. Diaz parece finalmente encontrar o momento em que todos os conflitos explorados por ele se originaram, a chegada de Magalhães nas Filipinas em 1521. Essa é a primeira obra do diretor a protagonizar um não-filipino, e isso permite Diaz mostrar seu país como uma terra pacífica e isolada antes da chegada dos espanhóis. O povo filipino vivia contente em suas vilas, mas o colonizador português tira isso deles. Magalhães e sua tripulação os afastam de sua religião, queimam suas casas e abusam de suas mulheres, em uma das sequências mais devastadoras que Diaz já filmou. Com 2 horas e 43 minutos, o filme é curto se comparado a maioria das obras dele, porém um de seus mais essenciais. Em Magalhães, Diaz finalmente encontra o que ele vinha procurando a décadas: o início da devastação das Filipinas. E parece que, ao achar isso, ele também encontra certa esperança. Muitas das obras de Lav Diaz são deprimentes e por vezes cínicas ou pessimistas, mas Magalhães termina em vitória. Literal, na derrota da tripulação e no assassinato de Fernão, na primeira e única cena de luta armada bem-sucedida da filmografia do diretor, mas também de uma forma mais simbólica, através do personagem de Enrique. Um escravo sua vida toda, afastado de sua terra natal e forçado a viajar com Fernão, Enrique de Malaca sobrevive a travessia do Pacífico, a batalha e os motins, e ao final de tudo finalmente ganha novamente sua liberdade, e consegue retornar a sua terra natal. Numa filmografia que se inicia com personagens permanentemente separados do seu país de origem, existem poucos finais mais esperançosos que esse.

