De onde vêm essas batidas? Que há de errado comigo? Por que todo ruído apavora-me? (Olha as mãos.) De quem são essas mãos? Ah! Arrancam-me os olhos? Lavará toda a água do oceano do poderoso Netuno este sangue de minhas mãos? Não, minhas mãos é que o derramarão em todos os mares e tornarão rubras as águas verdes.
A tragédia de Macbeth, escrita por William Shakespeare em torno de 1606, permanece como uma das maiores obras-primas da literatura clássica ocidental, notável por investigar as raízes da culpa, ambição e inevitabilidade do destino.
Originalmente criada para atender a toda a sociedade de Londres Elisabetana, a peça faz uso de elementos sobrenaturais para refletir as ansiedades políticas e ideológicas de seu tempo. No entanto, a adaptação cinematográfica contemporânea de Justin Kurzel opera em uma reinterpretação da obra, em que, ao invés de forças místicas externas que conduzem a narrativa, a tragédia ancora-se mais no realismo e na psique humana, evidenciando, por meio de recursos do cinema, o colapso e a ruína de Macbeth.
Acredito que a alteração mais enfática de Kurzel reside na forma de caracterizar as Três Feiticeiras. No texto shakespeariano, elas são classificadas como seres sobrenaturais, de aparência grotesca, que enganam e manipulam indivíduos por meio da feitiçaria e encantamentos mágicos, como visto no verso: “Façamos uma papa grossa e viscosa, então as tripas de um tigre adicionemos aos ingredientes de nosso caldeirão”. Na peça, embora essas descrições possam deixar margem para uma leitura inicial ambígua de que Macbeth poderia ter sido vítima de profecias enganosas e que parte de sua queda residiria nessa manipulação sobrenatural, a obra deixa claro que o aspecto sobre-humano serve apenas como um espelho da ambição desmedida já existente no protagonista. Alinhado a isso, Kurzel busca enfatizar essa segunda via de raciocínio, destituindo as três feiticeiras de seu aspecto monstruoso e dos aparatos da feitiçaria: elas são representadas como mulheres comuns, cuja única marca distintiva são escarificações faciais que sugerem o pertencimento a uma mesma comunidade. Ao humanizá-las, o diretor destaca a perspectiva de que as predições não são feitiços inevitáveis e incontornáveis, mas sim catalisadores de emoções que já existiam de forma latente no âmago do futuro rei. O sobrenatural foi desmistificado no filme para que ficasse ainda mais evidente que a responsabilidade da queda de Macbeth foi completa e unicamente dele mesmo.
Essa mesma ideia ocorre também com a aparição do suposto fantasma de Banquo. No palco, Shakespeare brinca com a ideia do espectro, sendo tanto uma aparição sobrenatural como a materialização da culpa sentida por Macbeth por matar seu melhor amigo. Kurzel amplia ainda mais a confusão mental de Macbeth, tratando o fantasma como um vestígio de sua própria consciência atormentada. Visualmente, a sala está cheia, mas ele está sozinho. O uso dramático da câmera lenta, o desfoque nos convidados e no cenário e o contraste da ocupação física de Banquo com seu lugar vazio no banquete representam uma escolha estética que evidencia a ideia do autor: não se trata de uma reaparição dos mortos no mundo dos vivos, mas sim de uma ruptura da realidade com a mente fragmentada do rei, forçada a lidar com seus próprios atos de violência que retornam para lhe assombrar a consciência.
Além da mudança nos elementos místicos, a transposição da linguagem teatral para a cinematográfica permitiu ao diretor explorar com mais riqueza a brutalidade da guerra e dos homens com seus semelhantes.
Nessa perspectiva, na peça escrita as batalhas são sugeridas de forma simples e rápidas “Combatem. Macbeth morre.” O filme, por sua vez, abre-se em um ultra slow motion, retratando o combate e a violência de forma visceral. Essa dilatação do tempo da violência no cinema evidencia o peso e o horror da guerra. À medida que a loucura e ambição tomam conta de Macbeth, a temperatura das cenas muda drasticamente, sobretudo no combate final: o vermelho torna-se tão presente na imagem que parece que o próprio ar da Escócia foi tingido de sangue.
No centro da construção do crime de Macbeth, jaz a personagem Lady Macbeth e seu papel crucial na narrativa. Curiosamente, ao analisar as diferentes traduções da obra, observa-se nuances em suas falas que são realmente fascinantes. Ao receber a notícia de que o rei pernoitará em seu castelo, ela evoca os espíritos para que a preparassem adequadamente para o crime que virá. No texto original em inglês, a expressão utilizada é “unsex me here”. Nas traduções da língua portuguesa essa fala é expandida para: “retirai-me minhas qualidades femininas e enchei-me, até a borda, das maiores crueldades!”. Essa linha de diálogo representa uma questão social muito importante da época: o papel da mulher. A feminilidade era intrinsicamente associada a noções de pureza, doçura e submissão, de forma que, nesse período, a capacidade de planejar e executar um crime – ainda mais um regicídio – exigia uma frieza e violência que eram vistas como pertencentes apenas ao domínio masculino. Assim, para agir, Lady Macbeth não pede apenas por coragem para cometer tal atrocidade, mas também para ser extirpada de seu gênero, a fim de se despir de suas amarras femininas para operar com brutalidade e precisão no regicídio, guiando Macbeth para o “caminho do círculo dourado”.
Achei interessante como uma fala simples da tradução original resume toda uma ideia da percepção de gênero vigente da época em que foi escrita. Isso evidencia a genialidade de Shakespeare, junto com outras metáforas absolutamente geniais e bem construídas que exigem ser lidas e relidas para que possam ser devidamente apreciadas.
Em suma, a adaptação de Justin Kurzel foi bastante verosímil à obra do dramaturgo, fazendo uso da cinematografia para explorar ainda mais elementos psicológicos da mente humana, externalizando os conflitos internos e a culpa de Macbeth. Desse modo, o diretor traduz o peso dos diálogos de Shakespeare em imagens reais que evidenciam o peso real da narrativa. Acredito que, embora o filme seja muito fiel a obra em si, a leitura na íntegra ainda se faz extremamente relevante.

